Dr. Valdecir "Cabra bom" é homenageado em trabalho Universitário

É com grande alegria e emoção, que nos chega às mãos, o extraordinário trabalho universitário, elaborado pela estudante de jornalismo da FMU Emanuelle Herrera Falchi, de 23 anos, moradora na Zona Norte da Capital, que elencou o Dr. Valdecir "Cabra Bom", como o personagem principal de sua obra,  intitulado o "Cirineu".

Sabedora do altruísmo e importante trabalho que o Dr. Valdecir "Cabra Bom"  desenvolve há  anos em prol dos mais carentes, colocou-se a campo procurando a diretoria do Detran, no intuito de agendar uma entrevista com o nobre Delegado. O resultado não poderia ser melhor, pois além da capacidade de Emanuelle conseguir retratar com emoção e realismo a sua primeira grande obra , deixou o ensinamento de que todos aqueles que procuram doar-se em prol de seus semelhantes rompem as fronteiras geográficas e encontram ressonância nos corações de todas as pessoas de bem, obtendo nota 9,5 por parte de seu Mestre, que só não lhe deu a nota máxima por não ter sido apresentado pessoalmente ao personagem por ela elencado.

Não poderíamos deixar de publicar na integra, o belo trabalho universitário desta jovem:

 

O CIRINEU

A sala de espera da Corregedoria do Detran, tem aquele ar tenso dos plantões abarrotados das delegacias de São Paulo, mas só à primeira vista. A secretária loira de blusa azul, com o ar cansado e o olhar ansioso no relógio força um sorriso, avisa ao Dr. Cabra Bom da minha chegada e me pede pra aguardar. Provavelmente eram 17hrs, ouve-se risadas altas vindas das salas próximas e o cheiro do café requentado invade o ambiente.

Dr. Valdecir do Nascimento, vai me receber pessoalmente. Com um sorriso receptivo e caloroso se desculpa pela demora. Em seus 49 anos, não aparentes, sempre teve um cuidado no trato com as pessoas, trata do faxineiro ao Diretor Geral do Departamento da mesma forma atenciosa. De antemão já se desculpa pelo linguajar humilde: "Eu não tenho que falar certo, eu tenho que agir certo.". O delegado diferente, o cabra bom, o seu jeito de ser lhe rendeu muitos adjetivos, amigos e oportunidades. "Se eu for mais um, eu mato minha história de vida. Eu não tenho vergonha de dizer que eu morei na favela, e que eu vim de origem humilde.", conta.

A infância marcada pela presença do pai, ora carinhosa ora rígida - de quem fala com o olhar lacrimejado - e pela carência que vivia em uma favela no Itaim Paulista, próximo ao conhecido Jardim Pantanal, moldou o caráter solidário do menino Valdecir, que fazia de tudo para ajudar aos pais. Aos 9 anos de idade começou a trabalhar em uma padaria do bairro, de onde levava pão e leite para casa como salário, lá ficou até os 20 anos quando decidiu buscar novas perspectivas de vida: "Pensei: vou arranjar outro emprego. Peguei um ônibus e fui pra Praça da República, onde se recrutavam vigilantes. Tinha umas peruas, a gente entrava e ia pra academia fazer exercícios, testes de aptidão física e quem dava as aulas era um oficial da Polícia Militar, e o instrutor do dia me disse que eu poderia tentar ingressar na corporação. Peguei o endereço e fui direto para a Cruzeiro do Sul. Na Polícia Militar fui soldado, cabo, e cheguei à sargento."

Escolheu o Direito por achar que não tinha outra vocação. Queria ser advogado para ajudar as pessoas. "Nem pensava em ser delegado, quando eu tava na faculdade fiz a prova porque foi o primeiro concurso que abriu, e eu queria saber como era o concurso público. E passei. Eu tinha uns 29 anos."

Em 1991, já delegado no 4º DP da Zona Leste de São Paulo, sentiu a necessidade de ajudar ao próximo, então se infiltrou nos sistemas de multirões do C.D.H.U, e anonimamente todo fim de semana ia para o canteiro de obras ajudar aos mutuários na construção de suas casas. O anonimato durou até a prisão de um traficante famoso na época, que lhe rendeu capa de jornal: "Ficou um clima horrível, e eu tive que chamar todo mundo e aí contei a minha história de vida, e disse que estava ali de coração, retribuindo o que a vida havia me dado. Que enquanto estava no anonimato eu era um deles. Foi aí que um dos mutuários, me chamou de 'Cabra Bom', o apelido pegou e eu acabei o adotando".

Hoje, delegado corregedor em um dos mais polêmicos departamentos da Polícia Civil, o DETRAN, teve sua trajetória marcada pelo trabalho duro: reformou delegacias desde a estrutura até o atendimento dado nos plantões, prendeu, investigou, mas antes que eu possa me aprofundar no assunto ele se adianta: "Eu não gosto de conversar muito sobre política e sobre polícia. Eu não gosto de falar muito disso porque já entra na parte técnica, não há sentimento!".

E não há nada mais que toque o sentimento do que falar do Projeto Cirineu, que hoje conta com trinta voluntários e todos os domingos distribui as doações de cestas-básicas, brinquedos, sapatos, roupas que ele leva com carinho e a atenção que dispensa a todos: "Eu sei o valor que tem uma roupa usada, um chinelo, um calçado, um brinquedo. Eu sei como é, eu recebi com carinho, e hoje dou com carinho.". Sua maior realização foi há quatro meses quando recebeu três contêineres de donativos vindos da Europa, que ele distribuiu às famílias vítimas das enchentes em São Paulo: "Esses momentos são importantes na minha vida, e não quando eu passei no vestibular, ou quando eu passei pra delegado."

O projeto não tem como objetivo ser assistencialista, Valdecir acredita que se deve ajudar em um momento de sufoco, e mais do que isso ajudar às pessoas a encontrarem o caminho para saírem desse sufoco sozinhas. E por isso o projeto chama-se Cirineu.

"Sabe quem foi Cirineu? Simão Cirineu?", ainda que meu conhecimento bíblico não fosse tão longe do nascimento e morte de Jesus, Dr. Valdecir Nascimento pacientemente conta: "No momento em que Jesus estava a caminho do calvário e deixou a cruz cair, Simão Cirineu ajudou Jesus a levantar a cruz, carregou um pouco para que ele tomasse fôlego e a devolveu a Jesus. É isso o que eu faço!". A referência a essa passagem do livro sagrado serve para explicar o projeto que criou com a proposta de ajudar as pessoas, ou como ele mesmo diz, retribuir. E completa,"Você não precisa fazer algo pra todo mundo saber, faça de coração, faça com

Emanuelle Herrera
http://vitroleiros.org

emoção e a recompensa é automática. Você sente a recompensa vindo no decorrer dos anos.Tudo é conseqüência das suas ações."



 


Fonte: Folha de São Miguel 17 a 25 de Setembro de 2011